08/11/23

Que diferença faz? // "Gota D'água" // Mendigos // "Grumpus"

"Que diferença faz?"


Que diferença faz
a telefonia
a conta do gás
a noite para o dia
de homem para rapaz
tristeza e alegria
em noite sem paz
perdido em nostalgia

Que diferença faz
a hora que passa
se é longa em minutos
e qualidade escassa 

Que diferença faz
Que diferença faz
o abraço 
que não dás

Que diferença faz
Que diferença faz
e eco vazio 
de queixa voraz

De gratuito a expontâneo
muita letra fora do lugar
muito esforço ou impulso 
muito santo sem altar



"mendigos"


A quem tem fome 

falta pão

A quem precisa 

falta tanto

A quem te acode

dá a mão

A quem te afasta

desencanto



04/11/23

"Esperanto" // "Sorrow on the Rocks"

 "Esperanto"


Bom dia
Como está?
Tudo de bom!
Então, adeus.

Buongiorno
Come stai?
Ti auguro il meglio!
Quindi, arrivederci.

Bonjour
Comment vas-tu?
Bonne journée!
au revoir.

Onomatopeias,
palavras,
frases,
dialectos,...

Nunca haverá entendimento
quando não é mútua 
a vontade
de uma língua comum.



30/10/23

"um qualquer domingo" // Gavin Bryars // "reencontro"

 "um qualquer domingo"


sem vergonha no numero 
salvo se ele exprime 
desperdício 
e, sabendo o chão em chamas,
é importante 
o modo 
como 
optamos 
arder





"reencontro"


senhora

não negueis

que em vosso ventre

nasce e morre

desejo de homens mil

e se uns nome não têm

outros em vão se esforçam


Senhora

vede

que hoje chove não só nas ruas

que o frio

tem sangue quente

que os dias pedem licença para nascer

que a própria terra ...

treme!

de saudade.

olhai que paz

nos pais

que amparam nos braços

enquanto mães descansam.

reparai

que até moribundos

cantam

uma canção para vós

e que,

mesmo sem nome botânico

perfumais

tudo o que vosso nome toca


Senhora

abençoai os aflitos

que nada têm para se queixar

senão essa maleita

de quem se viu um dia

livre de toda a tormenta

em vossos braços

e aí

ouviu seu nome pela primeira vez

em sacro batismo

"teu"

"meu"

"nosso"


Senhora

vede que fome

Senhora

vede que sede

que todo este mundo tem

de ti


23/10/23

5 rabiscos // Aldous Harding + Marlon Williams


"técnicas"

não adianta 
pedir
ou amordaçar
e outros lábios
apenas o tornam 
ensurdecedor.

o grito 
do desejo
só se cala
abocanhando 
o sexo.

"injusto"

é injusto
desculpem
mas é injusto
todo o modo como
em todo este caminho 
arrogantemente
e sem olhar a danos colaterais
o mundo
insiste 
em não se vergar
a todos
os meus caprichos

"endereço trocado"

se igual
apenas em nome
ao passo que
em idade,
trato,
modo de expressar
e sobretudo
usufruto
tudo difere.

ao entregar 
contornos, texturas e cheiros
que culpa tenho eu
quando recorrentemente
o carteiro
se engana no endereço?

"Senhora..."

no deserto
tudo é físico
não há espaço
para poesia

daí 
a sede.


"ausências"

o despertador toca
ordeno a todas as ausências
que permaneçam imóveis

depois
quase normal
uma, duas,três
nove horas.

saio,
ladro a quem passa,
uivo à lua,
pego em mim
e no vazio em mim
seguro-o entre mãos
grito-lhe,
embebedo-o.
se ele ganha face 
e contornos
fixo-lhe os olhos.
quase 
o amo.

depois....
fecho o dia
com a certeza
de que não há na vida 
nada de tão bom 
que eu não consiga estragar.

28/09/23

“historias” / Bowie / e então? / YMG

 “historias”


Mais que corpo e alma, pessoas são histórias. 

Há histórias que não preciso saber como acabam, histórias que gostaria de saber como acabam e histórias em que preciso saber. São essas as pessoas que amamos. É daí que o amor que pais e mães têm pelos filhos é evidente (Salvo raras excepções de ausência de afecto, na medida que lhes for possível precisam saber).

Assim, há histórias que precisamos conhecer e outras ainda que escrevemos a 4 mãos. 

Esta finda aqui para que, com menos tinta e mais afecto, outra possa continuar.


e então? 


23/09/23

"solilóquio" // Asas Fechadas

 "solilóquio"


(os sonhos não se agarram.
tentam-se escrever,
tentam-se pintar,
por vezes quase se filmam.

por vezes quase se tentam.)


sabes,

também eu sonhava

ser

"normal"

um doce embalo,

um príncipe de face meiga

e carinhosos gestos.

não sou quem procuram.

não aprenderei a ficar

em animação suspensa

onde "não és".

não quero

novamente,

recorrentemente,

apontar

o erro na lógica.

já tens idade.

caprichosa como o tempo,

velha como eu


deita-se fogo às chamas.
insulta-se o vazio
e os espaços entre o vazio.

sabes ...

já tudo foi feito, pensado,...


é cada vez mais difícil

encontrar espaço para o voo.
só filhos da puta sem ilusões

têm forças

para se iludir.

fazendo perdurar

contos de fadas.


em vão. 


elevo aos mãos aos céus para amparar os meus sonhos

elevo aos mãos aos céus para amparar os meus sonhos

elevo aos mãos aos céus para amparar os meus sonhos


15/09/23

"brincadeira" / Chicago Underground / "cinco horas da tarde" / Cap'n Jazz

 "brincadeira"


reconhecer,
no abismal escárnio
do tempo,
sedutora melopeia

se a voz
se torna audível
apenas 
para conjurar
ladainhas
na vertigem
de fintar
a morte
em vida

fantasmas 
atravessam paredes
homens 
não

---"""---






---"""---



"cinco horas da tarde"

qual o sentido
da palavra
que morre 
antes
da boca?

qual o sentido 
se a luz do quarto 
decreta silêncio 
nos cobertores

sem tempo 
não há sossego,
se sossego
o tempo sobra

és o que não és
quero o que não quero
serei o que não sou

anda,
chega,
senta.

vamos fazer

sentido


28/08/23

Fome

 "fome"


ide anunciar

que deus se esqueceu de nós

que aqui ninguém passa de formiga

que se esburaca a terra com os dedos

à procura da ultima refeição.

que agrilhoados nos corpos

nos fustigam as almas

e os corações são os primeiros a falecer!

que as vozes se esgotam antes de sair qualquer som

e que semeamos a sedição no silencio

que o tumulto cresce no vazio dos nossos estômagos

que amanhã, durante o seu sono,

cortamos a garganta de quem nos dá de comer.

que ninguém durma hoje sobre esta terra maldita!!

E que a sede me assole

se a que tenho 

só nesses lábios

morre.




25/08/23

"um regresso (in)esperado"

 "um regresso (in)esperado"


faz tempo 

desde que os olhos repousam


no impossível abraço que cura 

maleita de filha e

cansaço de mãe 


pergunto

se ainda recordo

o que és

e que aspecto terá o que és 

quando ninguém te vê


não há sons 

no espaço 

que separa corpos,


certo que

todos

os pássaros 

esperaram anos

para chilrear 

a nossa canção.



21/06/23

"2 beijos e uma cuspidela"

 "criatividade"


Guardo

debaixo da almofada

o mais belo 

coração

que o mundo já presenciou


Quando acordo

com esse coração 

sinto que acordo novo.

sou eu 

mas sou também

mais que eu.


as suas batidas

tornam-se ensurdecedoras

quando é necessário 

abafar

o peso de um ou outro momento

e rapidamente marcam o ritmo 

para que o cérebro 

dispare 

na memória

a melodia exata 

para que o sorriso rasgue


com ele adormeço também 

enquanto lhe conto coisas.


desde histórias mirabolantes

(aquela vez que surfamos o telhado do funicular,

o Sr da barbearia que tem 

seis dedos numa mão 

e sabe todas as capitais do mundo,

o Wolverine de Porto Alegre,

a Dona Rosa que se apaixonou pelas cartas escritas

pelo filho de 10 anos da vizinha,...) 

até a meras simplicidades do quotidiano

"hoje almocei bacalhau com natas,

choveu mas estava calor,

a Sra da loja da frente ao teatro tropeçou,

..."


quando ensonado,

não tendo a nossa imaginação

limite,

permite-me sempre

pedir

que me cale

com um beijo


guardo

debaixo da almofada

o coração

mais belo 

do mundo


(só não sei

se meu

ou teu)



"Num domingo qualquer, qualquer hora"


cansado.

ou mal.

(mas mal e cansado

talvez sejam igual)


Cansado de esperar 

não sei pelo quê

com vontade de falar 

não sei com quem 

Perdido

em

preocupações

com

nada


A pontapear flores 

numa frustração 

de adolescente 

que gasta páginas inteiras 

in

tei

ras

com impercetíveis frases.


Abatido sobre todo o peso

com que se encheu

o vazio

deixado 

pela ausência 

de quem 

ainda

não esteve.


“asterisco”


procuramos, não esperança, mas respostas.

existe no último e o primeiro amarelo 

(que rasgam horizonte 

impedindo ditadura 

das luzes artificiais)

um local

onde se constroem casas e gerações


tombam ao fim do dia

e com ele novamente se edificam


nas tuas mãos

uma fonte 

e um jardim


nas tuas mãos

sempre um jardim


esperança 

talvez não seja 

mais que 

a probabilidade de água


dia após dia após dia

procuramos

razão, réstia de luz.

recorrendo

em vão 

aos mais apurados métodos.


no entanto

não acreditamos. 

não damos o salto em falso

e assim

secamos a nossa própria esperança

seguindo de olhos vendados.


como se fosse possível eliminar 

a probabilidade de água!


contudo

seguimos 

também 

embriagados na nossa sede

com a mera perspetiva

que das mãos 

que sabem tocar

brotem

rosas