"Que diferença faz?"
"mendigos"
A quem tem fome
falta pão
A quem precisa
falta tanto
A quem te acode
dá a mão
A quem te afasta
desencanto
"Let everything that's been planned come true. Let them believe. And let them have a laugh at their passions. Because what they call passion actually is not some emotional energy, but just the friction between their souls and the outside world. And most important, let them believe in themselves. Let them be helpless like children, because weakness is a great thing, and strength is nothing. (...) " de "Stalker" (Andrei Tarkovsky)
"Que diferença faz?"
"mendigos"
A quem tem fome
falta pão
A quem precisa
falta tanto
A quem te acode
dá a mão
A quem te afasta
desencanto
"Esperanto"
"um qualquer domingo"
"reencontro"
senhora
não negueis
que em vosso ventre
nasce e morre
desejo de homens mil
e se uns nome não têm
outros em vão se esforçam
Senhora
vede
que hoje chove não só nas ruas
que o frio
tem sangue quente
que os dias pedem licença para nascer
que a própria terra ...
treme!
de saudade.
olhai que paz
nos pais
que amparam nos braços
enquanto mães descansam.
reparai
que até moribundos
cantam
uma canção para vós
e que,
mesmo sem nome botânico
perfumais
tudo o que vosso nome toca
Senhora
abençoai os aflitos
que nada têm para se queixar
senão essa maleita
de quem se viu um dia
livre de toda a tormenta
em vossos braços
e aí
ouviu seu nome pela primeira vez
em sacro batismo
"teu"
"meu"
"nosso"
Senhora
vede que fome
Senhora
vede que sede
que todo este mundo tem
de ti
“historias”
Mais que corpo e alma, pessoas são histórias.
Há histórias que não preciso saber como acabam, histórias que gostaria de saber como acabam e histórias em que preciso saber. São essas as pessoas que amamos. É daí que o amor que pais e mães têm pelos filhos é evidente (Salvo raras excepções de ausência de afecto, na medida que lhes for possível precisam saber).
Assim, há histórias que precisamos conhecer e outras ainda que escrevemos a 4 mãos.
Esta finda aqui para que, com menos tinta e mais afecto, outra possa continuar.
"solilóquio"
(os sonhos não se agarram.
tentam-se escrever,
tentam-se pintar,
por vezes quase se filmam.
por vezes quase se tentam.)
sabes,
também eu sonhava
ser
"normal"
um doce embalo,
um príncipe de face meiga
e carinhosos gestos.
não sou quem procuram.
não aprenderei a ficar
em animação suspensa
onde "não és".
não quero
novamente,
recorrentemente,
apontar
o erro na lógica.
já tens idade.
caprichosa como o tempo,
velha como eu
deita-se fogo às chamas.
insulta-se o vazio
e os espaços entre o vazio.
sabes ...
já tudo foi feito, pensado,...
é cada vez mais difícil
encontrar espaço para o voo.
só filhos da puta sem ilusões
têm forças
para se iludir.
fazendo perdurar
contos de fadas.
em vão.
elevo aos mãos aos céus para amparar os meus sonhos
elevo aos mãos aos céus para amparar os meus sonhos
elevo aos mãos aos céus para amparar os meus sonhos
"brincadeira"
"fome"
ide anunciar
que deus se esqueceu de nós
que aqui ninguém passa de formiga
que se esburaca a terra com os dedos
à procura da ultima refeição.
que agrilhoados nos corpos
nos fustigam as almas
e os corações são os primeiros a falecer!
que as vozes se esgotam antes de sair qualquer som
e que semeamos a sedição no silencio
que o tumulto cresce no vazio dos nossos estômagos
que amanhã, durante o seu sono,
cortamos a garganta de quem nos dá de comer.
que ninguém durma hoje sobre esta terra maldita!!
E que a sede me assole
se a que tenho
só nesses lábios
morre.
"um regresso (in)esperado"
faz tempo
desde que os olhos repousam
no impossível abraço que cura
maleita de filha e
cansaço de mãe
pergunto
se ainda recordo
o que és
e que aspecto terá o que és
quando ninguém te vê
não há sons
no espaço
que separa corpos,
certo que
todos
os pássaros
esperaram anos
para chilrear
a nossa canção.
"criatividade"
Guardo
debaixo da almofada
o mais belo
coração
que o mundo já presenciou
Quando acordo
com esse coração
sinto que acordo novo.
sou eu
mas sou também
mais que eu.
as suas batidas
tornam-se ensurdecedoras
quando é necessário
abafar
o peso de um ou outro momento
e rapidamente marcam o ritmo
para que o cérebro
dispare
na memória
a melodia exata
para que o sorriso rasgue
com ele adormeço também
enquanto lhe conto coisas.
desde histórias mirabolantes
(aquela vez que surfamos o telhado do funicular,
o Sr da barbearia que tem
seis dedos numa mão
e sabe todas as capitais do mundo,
o Wolverine de Porto Alegre,
a Dona Rosa que se apaixonou pelas cartas escritas
pelo filho de 10 anos da vizinha,...)
até a meras simplicidades do quotidiano
"hoje almocei bacalhau com natas,
choveu mas estava calor,
a Sra da loja da frente ao teatro tropeçou,
..."
quando ensonado,
não tendo a nossa imaginação
limite,
permite-me sempre
pedir
que me cale
com um beijo
guardo
debaixo da almofada
o coração
mais belo
do mundo
(só não sei
se meu
ou teu)
"Num domingo qualquer, qualquer hora"
cansado.
ou mal.
(mas mal e cansado
talvez sejam igual)
Cansado de esperar
não sei pelo quê
com vontade de falar
não sei com quem
Perdido
em
preocupações
com
nada
A pontapear flores
numa frustração
de adolescente
que gasta páginas inteiras
in
tei
ras
com impercetíveis frases.
Abatido sobre todo o peso
com que se encheu
o vazio
deixado
pela ausência
de quem
ainda
não esteve.
“asterisco”
procuramos, não esperança, mas respostas.
existe no último e o primeiro amarelo
(que rasgam horizonte
impedindo ditadura
das luzes artificiais)
um local
onde se constroem casas e gerações
tombam ao fim do dia
e com ele novamente se edificam
nas tuas mãos
uma fonte
e um jardim
nas tuas mãos
sempre um jardim
esperança
talvez não seja
mais que
a probabilidade de água
dia após dia após dia
procuramos
razão, réstia de luz.
recorrendo
em vão
aos mais apurados métodos.
no entanto
não acreditamos.
não damos o salto em falso
e assim
secamos a nossa própria esperança
seguindo de olhos vendados.
como se fosse possível eliminar
a probabilidade de água!
contudo
seguimos
também
embriagados na nossa sede
com a mera perspetiva
que das mãos
que sabem tocar
brotem
rosas