Nascem no peito,
dobram o silêncio.
Percorrem todo um bosque
inclinado-o ao vento
como quem fecha a mão sobre memória
mas deixa a luz passar entre os dedos.
Também essas tempestades
sabem partir.
Passamos anos
"Let everything that's been planned come true. Let them believe. And let them have a laugh at their passions. Because what they call passion actually is not some emotional energy, but just the friction between their souls and the outside world. And most important, let them believe in themselves. Let them be helpless like children, because weakness is a great thing, and strength is nothing. (...) " de "Stalker" (Andrei Tarkovsky)
Passamos anos
"
"persona non grata"
fui
persona non grata
durante tanto tempo
que comecei a cumprimentar
os avisos na porta.
havia
quem atravessasse a rua
para não me dar conversa,
e quem explicasse os meus defeitos
com a dedicação de um funcionário público.
eu agradecia.
afinal,
nem toda a gente recebe
tão detalhados relatórios.
continuei
a fazer favores discretos,
a aparecer quando faltava alguém,
a consertar o que ninguém via partir
não por virtude
mas
por hábito.
uma lâmpada num corredor
não discute filosofia,
apenas acende.
rezingão,
difícil,
ou estranho,
um ou dois chegaram a dizer
que eu tinha razão cedo demais,
o que é apenas uma forma elegante
de continuar a não ouvir.
um dia,
talvez quando eu já não estivesse por cá,
imagino-os reunidos.
muito sérios.
muito comovidos.
a descobrir-me subitamente.
um verdadeiro milagre.
alguém dirá:
"era uma boa pessoa."
como se tivesse acabado de descobrir
um continente.
cada um com a sua lotaria.
ir acontecendo
mesmo quando ninguém aplaude,
continua a ser uma bela maneira
de ocupar espaço no mundo.
"olá"
bemvindo
persistente
anónimo
a resposta é:
sim. ainda.
--""--
"coisa"
a coisa
instala-se devagar,
como humidade nas paredes,
como um nome que deixamos de dizer
para não gastar o pouco que resta dele.
respondo a amigos com frases breves
para que não percebam
o tamanho do silêncio.
---"""---
"por vezes"
por vezes a saudade não dói.
apenas acompanha.
senta-se ao lado.
olha pela janela.
um animal cansado
que finalmente aprendeu
a não pedir para entrar.
o mundo
"arritmia"
dentro de mim
há um relógio
que desaprendeu
não bate as horas
hesita
como se cada segundo
tivesse de pedir licença
os médicos usam
uma palavra arrumada
com sílabas
que parecem saber o que fazem
cá dentro
é mais
um pássaro
que se esquece do céu
e tenta voar
aos soluços
há dias em que tudo corre bem
tum-tum
como um comboio
apenas chega
outros
distrai-se
olha pela janela
perde a estação
é
uma espécie de intervalo
um silêncio mal colocado
no meio da frase
que sou
---"""---
senta-se
onde a luz da tarde
fica parada.
como quem esquece
o caminho de volta.
como quem pede licença
já dentro de casa.
não diz nada.
nunca diz nada.
escreve
papéis invisíveis
cheios de coisas
que quase fomos.
"ida"
A distância não são quilómetros
é a cadeira vazia na cozinha,
o telemóvel iluminado às três da manhã.
---"""---
o ano finda.
arruma-se sem barulho.
devagar.
dentro das palavras.
leva algo
que pensámos ser nosso.
deixa
pequenas perguntas,
gestos interrompidos,
frases inacabadas.
semeia histórias.
oferece
possibilidades.
amanhã,
com outra data,
convidamos palavras novas,
faremos paz com as antigas.
não sabemos descrever melhor
essa forma de perder
o que ainda está connosco.
O melhor de 2025
são as saudades
que sempre terei.