"à prova de bala"
houve tempo
em que éramos
dois estranhos
a lembrar-se um do outro.
dois estranhos
a lembrar-se um do outro.
tudo quanto vive:
primeiro leva as tardes,
depois algumas certezas,
depois aquele brilho
de quem acredita
em chegar
e ficar.
ficámos durante um pouco.
para cuspir no destino.
ficámos porque, entre
as contas por pagar,
portas fechadas
e os dias,
o teu olhar
ainda me procurava
sem fazer perguntas.
sem fazer perguntas.
o mundo disparou contra nós
a sua coleção de pequenas tragédias.
mudaste endereço
a sua coleção de pequenas tragédias.
mudaste endereço
(para norte.
uma... duas.. três vezes.
pergunto-me se terás recebido as cartas)
e, ainda assim,
aqui estamos.
e, ainda assim,
aqui estamos.
um pouco mais difíceis de impressionar.
ainda capazes
de reconhecer o outro
quando a luz é fraca.
o tempo garante
de reconhecer o outro
quando a luz é fraca.
o tempo garante
que teremos cada vez
um pouco menos
juventude,
planos,
e pressa.
o que ficou
não é invencível.
mas tem-se provado
juventude,
planos,
e pressa.
o que ficou
não é invencível.
mas tem-se provado
à prova de bala.

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