21/09/26

A cidade pequena // Trans AM // variações // White noise // escadas

A cidade pequena
é uma palavra
que não aprendeu 
a acabar.

Nós, pequenos também,
habitamos o intervalo
entre um nome
e o seu eco.

---"""---




não me ponham a falar de amor 
para existir 
basta sair de casa

---"""---

não me ponham a falar para existir
sair de amor 

basta
       basta
            basta

de casa

---"""---

não me ponham a sair de casa 
basta de amor 
           para existir

---"""---

sair 
não me basta
casa 

para existir
ponham amor a falar


Há escadas em todo o lado.

Ninguém lhes presta muita atenção.

Sobes.
Desces.
Ficas a meio,
a pensar 
se vale a pena continuar.

levam para cima,
para baixo,
sem cobrarem mensalidade.

há dias 
em que são montanhas,
noites em que um degrau
parece uma decisão importante.

a arquitetura
tem um certo sentido de humor.

dizem que há outro lugar ali em cima.

E então sobes.



19/09/26

"Prazo de validade" // the Bats // "cortes de cabelo?"

 "Prazo de validade"


Comprei uma máquina de café
que morreu aos dois anos.
não foi uma morte bonita.
não houve drama,
nem médico,
nem alguém a dizer
“pobrezinha... 
tentou!”.

Apenas parou.

Na loja
o rapaz atrás do balcão
disse qualquer coisa sobre peças,
garantia,
novos  modelos.

Atrás dele havia vinte máquinas
sob a luz branca,
todas prometendo
mais três anos de felicidade.

Comprei outra.

Em casa,
a televisão começou a piscar.

O telemóvel pediu uma atualização
(que o tornou mais lento).

A minha cadeira
perdeu uma roda.

O frigorífico fez um barulho estranho.

uma longa fila de coisas
a morrerem
um pouco antes de nós.

Nas montras 
nada tinha ferrugem.
nada parecia cansado.
nada admitia
que um dia iria parar.

Só eu.

Eu já sabia.

E, por alguma razão,
isso ainda funcionava.



Nunca comentem
o corte de cabelo
d'uma mulher.

nem a cor dos olhos,

Nunca
antes de terem tempo suficiente
de não reparar em nada disso.

---"""---

"cortes de cabelo?"

parecia a Jean Seberg

excepto que eu nunca conheci
a Jean Seberg
e,se conhecesse,
estou certo de que 
a Jean Seberg
ficaria aquém

não é que
uma mulher
de cabelo curto
seja uma 
Jean Seberg
em
potencial
é que,
potencialmente,
aquela mulher
que parecia 
a Jean Seberg
seria o que
nenhuma
Jean Seberg
conseguiria
ser

com ou sem
Godard



09/09/26

"à prova de bala" // Cleaners From Venus

 "à prova de bala"

houve tempo
em que éramos
dois estranhos
a lembrar-se um do outro.

o tempo testa
tudo quanto vive:
primeiro leva as tardes,
depois algumas certezas,
depois aquele brilho
de quem acredita
em chegar
e ficar.

ficámos durante um pouco.
para cuspir no destino.

ficámos porque, entre
as contas por pagar,
portas fechadas
e os dias,
o teu olhar
ainda me procurava
sem fazer perguntas.

o mundo disparou contra nós
a sua coleção de pequenas tragédias.

mudaste endereço
(para norte. 
uma... duas.. três vezes. 
pergunto-me se terás recebido as cartas)
e, ainda assim,
aqui estamos.

um pouco mais difíceis de impressionar.

ainda capazes
de reconhecer o outro
quando a luz é fraca.

o tempo garante 
que teremos cada vez 
um pouco menos
juventude,
planos,
e pressa.

o que ficou
não é invencível.
mas tem-se provado
à prova de bala.



21/07/26

"variações 1 a 3" // Tom waits // VU // The Clean

 "variações um"


uma pessoa 
passa anos 
a construir segurança, 
assertividade, autosuficiência,...
e depois chega 
um encontro casual
ou um sorriso semelhante
ou uma memória sorrateira,...
uma dessas merdas 
feitas para nos foder o dia com laivos de esperança
e puff

o coração
quer o que quer



"variações  dois"

uma pessoa
passa anos
a construir paredes
com nomes bonitos:

segurança,
assertividade,
autossuficiência,
amor-próprio,
essa merda toda.

aprende a não precisar,
a não esperar,
a não confundir
um gesto
com uma promessa.

fica boa nisso.

fica mesmo boa.

até que um dia
um encontro casual,
um sorriso
demasiado parecido
com outro,
uma memória
que se escondeu
anos dentro de uma gaveta
resolve aparecer
sem pedir licença.

uma dessas pequenas merdas
que a vida guarda
para nos foder o dia
com uns laivos de esperança.

e pronto.
puff.
lá se vai.

no fim
por mais que uma pessoa
se construa,
por mais que se proteja,
por mais que se  convença
que sabe
o que não quer

o coração
quer
o que quer.




"variações três"

uma pessoa
passa anos
a fechar portas.

chama-lhes
segurança.

depois,
um sorriso.
ou nem isso.

uma coisa parecida
com qualquer coisa
que já foi.

e de repente
há uma fresta.

só uma.

uma chega.

o coração,
volta sempre
a lugares
onde não devia.

puff.

num segundo.

e o pior
é que ele sabe.

só não quer saber.





20/07/26

Los Wemblers // "A IA usa travessão" // Broadcast // "Vaguear"

 



li hoje que
a IA usa travessão —
como quem tem alguma coisa a dizer.

Usei.

pareces que está a tentar 
parecer humana.

responde:
— compreendo.

compreendes o caralho!

passei anos a escrever sem saber
onde pôr a vírgula
e agora uma máquina
que nunca ficou bêbada,
nunca perdeu um emprego,
nunca acordou às quatro da manhã
a olhar para o tecto
a pensar naquela mulher,
usa travessões com uma confiança
que me ofende.

— talvez seja uma questão de estilo.

estilo.

ouço essa palavra
e penso em homens mortos
em quartos baratos,
cigarros apagados dentro de chávenas,
poemas escritos
porque não havia dinheiro para pagar
a conta da luz 
e a masturbação 
já não tinha o mesmo encanto.

a máquina acrescenta:
— posso retirar os travessões
se preferir.

deixa.

eu uso travessões
porque não sei.

como quem manda moeda ao ar
para poder culpar o destino.

ela usa-os
porque aprendeu
que é assim que um humano
parece hesitar.


vaguear
é uma profissão honesta.

a erva rompe
a fenda do passeio
com elegância,

o gato 
ignora completamente
a economia do mundo. 


a cidade
pode esconder tanto
nos lugares para onde ninguém olha.

no banco de jardim
alimentamos pardais
como quem paga dívidas

a cidade cansa-se
de fingir que é feita de cimento.

durante alguns quarteirões
consigo acreditar
que o mundo ainda sabe
crescer entre as pedras.





19/07/26

"tempestades" // Pop Makossa - Cameroon 1976-1984 // idealismo VS realismo // Townes Van Zandt

Sei de tempestades sem céu.

Nascem no peito,
dobram o silêncio.

Percorrem todo um bosque
inclinado-o ao vento
como quem fecha a mão sobre memória
mas deixa a luz passar entre os dedos.

Também essas tempestades
sabem partir.

 

Passamos anos

a chamar destino
ao medo de escolher.

As ilusões são educadas.
entram devagar,
convencem-nos
de que a vida ficou melhor.

Depois vai-se a luz.

o realismo
tem olheiras.
contas por pagar.
silêncios
que ninguém aplaude.

Mas fica.

honesto
como quem permanece
quando não há promessas.

Ao insistente realismo  
chamo desafio.

é esse o meu tipo de loucura.






04/07/26

Exercícios de nostalgia II // Linda Catlin Smith


 

"


Há dias em que penso em dizer qualquer coisa.
uma coisa pequena:
que o céu tinha uma cor estranha.
que um cão adormeceu na rua.
que está um calor atípico 

mas a distância e o tempo 
transformam frases em silêncio
com uma eficiência quase elegante.

"

A distância é silenciosa
isso torna-a difícil.

não parte janelas,
não obriga ninguém a olhar duas vezes.

apenas muda o peso das coisas.

a cadeira continua no mesmo lugar.
a chávena continua inteira.
a rua continua a levar pessoas
para sítios onde não estás.

quando falta alguém
tudo continua absurdamente funcional


"

Às vezes imagino o momento
em que deixaremos de medir o mundo
em quilómetros,
fusos horários,
e esperas.

dói-me o coração
de tão grande.

parte de mim
continua a guardar espaço.

uma estranha incapacidade
de aprender geografia.





21/06/26

Exercícios de nostalgia // Beat Happening // Pierre Vassiliu

 



reencontro é teimosia
de quem aceita 
diferentes possibilidades.
doente de esperança.