"Prazo de validade"
Comprei uma máquina de café
que morreu aos dois anos.
não foi uma morte bonita.
não houve drama,
nem médico,
nem alguém a dizer
“pobrezinha...
Apenas parou.
Na loja
o rapaz atrás do balcão
disse qualquer coisa sobre peças,
garantia,
novos modelos.
Atrás dele havia vinte máquinas
sob a luz branca,
todas prometendo
mais três anos de felicidade.
Comprei outra.
Em casa,
a televisão começou a piscar.
O telemóvel pediu uma atualização
(que o tornou mais lento).
perdeu uma roda.
O frigorífico fez um barulho estranho.
uma longa fila de coisas
a morrerem
um pouco antes de nós.
Nas montras
nada tinha ferrugem.
nada parecia cansado.
nada admitia
que um dia iria parar.
Só eu.
Eu já sabia.
E, por alguma razão,
isso ainda funcionava.
Nunca comentem
o corte de cabelo
d'uma mulher.
nem a cor dos olhos,
Nunca
antes de terem tempo suficiente
de não reparar em nada disso.
---"""---
parecia a Jean Seberg
ser



