01/01/26

Kim & Leanne // fim de ano


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 o ano finda.
arruma-se sem barulho.
devagar.
dentro das palavras.

leva algo
que pensámos ser nosso.

deixa
pequenas perguntas,
gestos interrompidos,
frases inacabadas.

semeia histórias.
oferece
possibilidades.

amanhã,
com outra data,
convidamos palavras novas,
faremos paz com as antigas.

não sabemos descrever melhor
essa forma de perder
o que ainda está connosco.

O melhor de 2025
são as saudades
que sempre terei.



27/12/25

Snapped Ankles // "Lazaro?" // Fool's Gold

 

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saudade não é falta,
nem excesso de silêncio.
é quando o não dito
fala alto.

ausência 
é maneira de estar
sem estar.
uma presença educada
que não se senta.

não escrevo
porque escrever é uma forma de chegar
e estamos proibidos de chegar.

as regras 
têm esta crueldade discreta
de parecerem necessárias.

Tenho um nome
para todo este cuidado 
em não dizer o teu nome.

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21/12/25

The Fall // "Vento" // Bill Callahan



 o vento arrasta
 tudo o que virá
 sem forma e sem nome
 o futuro será 


"Café" // Cleaners from Venus

"Café?"


A saudade não pede licença, entra a pontapé,

fica quando tudo falha e orgulho cai.

Uma chónice do caralho.

Não salva ninguém, mas aguenta o dia,

como um murro no meio do peito.

Eficaz. 

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20/12/25

Dream Syndicate // "o equilibrista" // Nicotine's Orchestra


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"o equilibrista" 

trago o nariz torto 
a alma à mostra
e com eles danço no meio da sala,
ninguém se salva da própria máscara
quando o absurdo decide ser terno. 


fico assim, desajeitado,
como quem pousa o casaco no riso,
e percebo: só somos inteiros
quando não fingimos estar direitos.


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19/12/25

Tall Dwarfs // "repetição #2"

"repetição #2"


 Acordo.
 Sento.
 Levanto-me para continuar.
 Nada acontece.
 Mas agora com mais luz.
 

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07/11/25

"hora de inverno" // My Bloody Valentine

 "hora de inverno"


a hora atrasa, 
a rua muda de pele
e o impossível 
pede abrigo


17/09/25

"as crianças não fazem barulho" // Pram


 "as crianças não fazem barulho"

(Palestina 2025)

o ecrã brilha
com um tipo de luz
que não aquece,
mas queima devagar.

fazemos scroll 
enquanto um corpo pequeno
é retirado dos escombros 
como se fosse 
um saco de arroz estragado.

vendem medo
em brilhantes embalagens
com música épica de fundo.

milhares de partilhas.
milhões de olhos.
nenhuma lágrima.

há dinheiro a ser contado
enquanto os ossos partem,
há contratos assinados
por mãos
que nunca 
empunharam uma pá
para enterrar ninguém,
mas que desenham mapas
com sangue.

as pessoas dizem
"é muito complicado"
e depois voltam à pizza,
à série,
ao sofá.

sem ninguém para varrer,
os corpos acumulam-se
como folhas de outono.

há, no entanto, coisas 
que não conseguiram matar:
o olhar
pequeno, sujo, faminto,
que ainda acredita.

uma mão que se estende 
quando tudo ensina 
a fechar o punho.

mesmo entre ruínas,  
a esperança é teimosa.
às vezes disfarçada de loucura,
ou de poesia mal escrita.

está viva.
e um dia vai gritar 
mais alto que todas as bombas!

Ouçam o que vos digo!
Falo do que sei.

A esperança é teimosa!