"persona non grata"
fui
persona non grata
durante tanto tempo
que comecei a cumprimentar
os avisos na porta.
havia
quem atravessasse a rua
para não me dar conversa,
e quem explicasse os meus defeitos
com a dedicação de um funcionário público.
eu agradecia.
afinal,
nem toda a gente recebe
tão detalhados relatórios.
continuei
a fazer favores discretos,
a aparecer quando faltava alguém,
a consertar o que ninguém via partir
não por virtude
mas
por hábito.
uma lâmpada num corredor
não discute filosofia,
apenas acende.
rezingão,
difícil,
ou estranho,
um ou dois chegaram a dizer
que eu tinha razão cedo demais,
o que é apenas uma forma elegante
de continuar a não ouvir.
um dia,
talvez quando eu já não estivesse por cá,
imagino-os reunidos.
muito sérios.
muito comovidos.
a descobrir-me subitamente.
um verdadeiro milagre.
alguém dirá:
"era uma boa pessoa."
como se tivesse acabado de descobrir
um continente.
cada um com a sua lotaria.
ir acontecendo
mesmo quando ninguém aplaude,
continua a ser uma bela maneira
de ocupar espaço no mundo.






