30/07/26
21/07/26
"variações 1 a 3" // Tom waits // VU // The Clean
"variações um"
passa anos
a fechar portas.
chama-lhes
segurança.
depois,
um sorriso.
ou nem isso.
uma coisa parecida
com qualquer coisa
que já foi.
e de repente
há uma fresta.
só uma.
uma chega.
o coração,
volta sempre
a lugares
onde não devia.
puff.
num segundo.
e o pior
é que ele sabe.
20/07/26
Los Wemblers // "A IA usa travessão" // Broadcast // "Vaguear"
li hoje que
a IA usa travessão —
como quem tem alguma coisa a dizer.
Usei.
pareces que está a tentar
responde:
— compreendo.
passei anos a escrever sem saber
onde pôr a vírgula
e agora uma máquina
que nunca ficou bêbada,
nunca perdeu um emprego,
nunca acordou às quatro da manhã
a olhar para o tecto
a pensar naquela mulher,
usa travessões com uma confiança
que me ofende.
— talvez seja uma questão de estilo.
estilo.
ouço essa palavra
e penso em homens mortos
em quartos baratos,
cigarros apagados dentro de chávenas,
poemas escritos
porque não havia dinheiro para pagar
a conta da luz
a máquina acrescenta:
— posso retirar os travessões
se preferir.
deixa.
eu uso travessões
porque não sei.
ela usa-os
porque aprendeu
que é assim que um humano
parece hesitar.
é uma profissão honesta.
a fenda do passeio
com elegância,
a economia do mundo.
a cidade
pode esconder tanto
no banco de jardim
alimentamos pardais
como quem paga dívidas
a cidade cansa-se
de fingir que é feita de cimento.
durante alguns quarteirões
consigo acreditar
que o mundo ainda sabe
crescer entre as pedras.
19/07/26
"tempestades" // Pop Makossa - Cameroon 1976-1984 // idealismo VS realismo // Townes Van Zandt
Nascem no peito,
dobram o silêncio.
Percorrem todo um bosque
inclinado-o ao vento
como quem fecha a mão sobre memória
mas deixa a luz passar entre os dedos.
Também essas tempestades
sabem partir.
Passamos anos
04/07/26
Exercícios de nostalgia II // Linda Catlin Smith
"
uma coisa pequena:
que o céu tinha uma cor estranha.
que um cão adormeceu na rua.
mas a distância e o tempo
com uma eficiência quase elegante.
isso torna-a difícil.
não parte janelas,
não obriga ninguém a olhar duas vezes.
apenas muda o peso das coisas.
a cadeira continua no mesmo lugar.
a chávena continua inteira.
a rua continua a levar pessoas
para sítios onde não estás.
quando falta alguém
Às vezes imagino o momento
em que deixaremos de medir o mundo
em quilómetros,
fusos horários,
e esperas.
dói-me o coração
parte de mim
continua a guardar espaço.
uma estranha incapacidade
de aprender geografia.
10/06/26
"persona non grata" // Scientists // "maio/junho 2026" // Los Mirlos
"persona non grata"
fui
persona non grata
durante tanto tempo
que comecei a cumprimentar
os avisos na porta.
havia
quem atravessasse a rua
para não me dar conversa,
e quem explicasse os meus defeitos
com a dedicação de um funcionário público.
eu agradecia.
afinal,
nem toda a gente recebe
tão detalhados relatórios.
continuei
a fazer favores discretos,
a aparecer quando faltava alguém,
a consertar o que ninguém via partir
não por virtude
mas
por hábito.
uma lâmpada num corredor
não discute filosofia,
apenas acende.
rezingão,
difícil,
ou estranho,
um ou dois chegaram a dizer
que eu tinha razão cedo demais,
o que é apenas uma forma elegante
de continuar a não ouvir.
um dia,
talvez quando eu já não estivesse por cá,
imagino-os reunidos.
muito sérios.
muito comovidos.
a descobrir-me subitamente.
um verdadeiro milagre.
alguém dirá:
"era uma boa pessoa."
como se tivesse acabado de descobrir
um continente.
cada um com a sua lotaria.
ir acontecendo
mesmo quando ninguém aplaude,
continua a ser uma bela maneira
de ocupar espaço no mundo.
03/06/26
25/05/26
Frank pahl // "coisa" // thee milkshakes // "Por vezes"
"olá"
bemvindo
persistente
anónimo
a resposta é:
sim. ainda.
--""--
"coisa"
a coisa
instala-se devagar,
como humidade nas paredes,
como um nome que deixamos de dizer
para não gastar o pouco que resta dele.
respondo a amigos com frases breves
para que não percebam
o tamanho do silêncio.
---"""---
"por vezes"
por vezes a saudade não dói.
apenas acompanha.
senta-se ao lado.
olha pela janela.
um animal cansado
que finalmente aprendeu
a não pedir para entrar.
13/05/26
Thee Headcoats // "o mundo" // Gram Parsons
o mundo
como quem tropeça.
e isso basta



