10/06/26

"persona non grata" // Scientists // "maio/junho 2026" // Los Mirlos

"persona non grata" 

fui
persona non grata
durante tanto tempo
que comecei a cumprimentar
os avisos na porta.

havia
quem atravessasse a rua
para não me dar conversa,
e quem explicasse os meus defeitos
com a dedicação de um funcionário público.

eu agradecia.

afinal,
nem toda a gente recebe
tão detalhados relatórios.

continuei 

a fazer favores discretos,
a aparecer quando faltava alguém,
a consertar o que ninguém via partir

não por virtude
mas
por hábito.

uma lâmpada num corredor
não discute filosofia,
apenas acende.

rezingão,
difícil,
ou estranho,
um ou dois chegaram a dizer
que eu tinha razão cedo demais,
o que é apenas uma forma elegante
de continuar a não ouvir.

um dia,
talvez quando eu já não estivesse por cá,
imagino-os reunidos.

muito sérios.
muito comovidos.

a descobrir-me subitamente.
um verdadeiro milagre.

alguém dirá:
"era uma boa pessoa."
como se tivesse acabado de descobrir
um continente.

cada um com a sua lotaria.

ir acontecendo
mesmo quando ninguém aplaude,
continua a ser uma bela maneira
de ocupar espaço no mundo.



"maio/junho 2026"

se era
quebrei

se fui
sonhei

se és 
irei

se sou
serei




25/05/26

Frank pahl // "coisa" // thee milkshakes // "Por vezes"

"olá"

bemvindo
persistente
anónimo 

a resposta é:
sim. ainda. 

--""--



"coisa"

a coisa
instala-se devagar,
como humidade nas paredes,
como um nome que deixamos de dizer
para não gastar o pouco que resta dele.

respondo a amigos com frases breves
para que não percebam
o tamanho do silêncio.

---"""---


"por vezes"


por vezes a saudade não dói.
apenas acompanha.
senta-se ao lado.
olha pela janela.

um animal cansado
que finalmente aprendeu
a não pedir para entrar.



13/05/26

Thee Headcoats // "o mundo" // Gram Parsons

 

o mundo 
não promete.

acontece
como quem tropeça.

e isso basta
para suspender, por um instante,
a certeza de que tudo já estava escrito.


06/04/26

arritmia // spacemen 3 // lee hazlewood

 

"arritmia"


dentro de mim

há um relógio

que desaprendeu


não bate as horas


hesita

como se cada segundo

tivesse de pedir licença


os médicos usam

uma palavra arrumada

com sílabas 

que parecem saber o que fazem


cá dentro

é mais

um pássaro

que se esquece do céu

e tenta voar 

aos soluços


há dias em que tudo corre bem

tum-tum

como um comboio

apenas chega


outros

distrai-se

olha pela janela

perde a estação


é

uma espécie de intervalo

um silêncio mal colocado

no meio da frase

que sou





---"""---


senta-se

onde a luz da tarde

fica parada.


como quem esquece 

o caminho de volta.


como quem pede licença

já dentro de casa.


não diz nada.


nunca diz nada.


escreve

papéis invisíveis

cheios de coisas

que quase fomos.




01/03/26

Los Mirlos // "ida" // Bobby Fuller Four // Ty Segall

 

"ida"

A distância não são quilómetros
é a cadeira vazia na cozinha,
o telemóvel iluminado às três da manhã.

um farol que não chama navios.

vivemos afastados 
do que sonhámos,
separados por salários curtos,
mapas desenhados a régua,
e fronteiras que cabem dentro do peito.
Num receio pequeno, insistente,
que mastiga o futuro antes de ele nascer
vamos guardando um casaco bom
para um inverno que nunca chega.

Mas 
a imprevisibilidade não é só ameaça;
é também fresta por onde entra o ar.
Se nada está garantido,
tudo ainda é possível.

comprar passagem só de ida
como quem acende uma luz pequena
num quarto demasiado grande.

perceber que a luz não elimina a noite
mas, dentro dela,
desenha caminhos.




01/01/26

Kim & Leanne // fim de ano


---"""---


 o ano finda.
arruma-se sem barulho.
devagar.
dentro das palavras.

leva algo
que pensámos ser nosso.

deixa
pequenas perguntas,
gestos interrompidos,
frases inacabadas.

semeia histórias.
oferece
possibilidades.

amanhã,
com outra data,
convidamos palavras novas,
faremos paz com as antigas.

não sabemos descrever melhor
essa forma de perder
o que ainda está connosco.

O melhor de 2025
são as saudades
que sempre terei.