21/07/26

"variações 1 a 3" // Tom waits // VU // The Clean

 "variações um"


uma pessoa 
passa anos 
a construir segurança, 
assertividade, autosuficiência,...
e depois chega 
um encontro casual
ou um sorriso semelhante
ou uma memória sorrateira,...
uma dessas merdas 
feitas para nos foder o dia com laivos de esperança
e puff

o coração
quer o que quer



" variações  dois"

uma pessoa
passa anos
a construir paredes
com nomes bonitos:

segurança,
assertividade,
autossuficiência,
amor-próprio,
essa merda toda.

aprende a não precisar,
a não esperar,
a não confundir
um gesto
com uma promessa.

fica boa nisso.

fica mesmo boa.

até que um dia
um encontro casual,
um sorriso
demasiado parecido
com outro,
uma memória
que se escondeu
anos dentro de uma gaveta
resolve aparecer
sem pedir licença.

uma dessas pequenas merdas
que a vida guarda
para nos foder o dia
com uns laivos de esperança.

e pronto.
puff.
lá se vai.

no fim
por mais que uma pessoa
se construa,
por mais que se proteja,
por mais que se  convença
que sabe
o que não quer

o coração
quer
o que quer.




"variações três"

uma pessoa
passa anos
a fechar portas.

chama-lhes
segurança.

depois,
um sorriso.
ou nem isso.

uma coisa parecida
com qualquer coisa
que já foi.

e de repente
há uma fresta.

só uma.

uma chega.

o coração,
volta sempre
a lugares
onde não devia.

puff.

num segundo.

e o pior
é que ele sabe.

só não quer saber.





20/07/26

Los Wemblers // "A IA usa travessão" // Broadcast // "Vaguear"

 



li hoje que
a IA usa travessão —
como quem tem alguma coisa a dizer.

Usei.

pareces que está a tentar 
parecer humana.

responde:
— compreendo.

compreendes o caralho!

passei anos a escrever sem saber
onde pôr a vírgula
e agora uma máquina
que nunca ficou bêbada,
nunca perdeu um emprego,
nunca acordou às quatro da manhã
a olhar para o tecto
a pensar naquela mulher,
usa travessões com uma confiança
que me ofende.

— talvez seja uma questão de estilo.

estilo.

ouço essa palavra
e penso em homens mortos
em quartos baratos,
cigarros apagados dentro de chávenas,
poemas escritos
porque não havia dinheiro para pagar
a conta da luz 
e a masturbação 
já não tinha o mesmo encanto.

a máquina acrescenta:
— posso retirar os travessões
se preferir.

deixa.

eu uso travessões
porque não sei.

como quem manda moeda ao ar
para poder culpar o destino.

ela usa-os
porque aprendeu
que é assim que um humano
parece hesitar.


vaguear
é uma profissão honesta.

a erva rompe
a fenda do passeio
com elegância,

o gato 
ignora completamente
a economia do mundo. 


a cidade
pode esconder tanto
nos lugares para onde ninguém olha.

no banco de jardim
alimentamos pardais
como quem paga dívidas

a cidade cansa-se
de fingir que é feita de cimento.

durante alguns quarteirões
consigo acreditar
que o mundo ainda sabe
crescer entre as pedras.





19/07/26

"tempestades" // Pop Makossa - Cameroon 1976-1984 // idealismo VS realismo // Townes Van Zandt

Sei de tempestades sem céu.

Nascem no peito,
dobram o silêncio.

Percorrem todo um bosque
inclinado-o ao vento
como quem fecha a mão sobre memória
mas deixa a luz passar entre os dedos.

Também essas tempestades
sabem partir.

 

Passamos anos

a chamar destino
ao medo de escolher.

As ilusões são educadas.
entram devagar,
convencem-nos
de que a vida ficou melhor.

Depois vai-se a luz.

o realismo
tem olheiras.
contas por pagar.
silêncios
que ninguém aplaude.

Mas fica.

honesto
como quem permanece
quando não há promessas.

Ao insistente realismo  
chamo desafio.

é esse o meu tipo de loucura.






04/07/26

Exercícios de nostalgia II // Linda Catlin Smith


 

"


Há dias em que penso em dizer qualquer coisa.
uma coisa pequena:
que o céu tinha uma cor estranha.
que um cão adormeceu na rua.
que está um calor atípico 

mas a distância e o tempo 
transformam frases em silêncio
com uma eficiência quase elegante.

"

A distância é silenciosa
isso torna-a difícil.

não parte janelas,
não obriga ninguém a olhar duas vezes.

apenas muda o peso das coisas.

a cadeira continua no mesmo lugar.
a chávena continua inteira.
a rua continua a levar pessoas
para sítios onde não estás.

quando falta alguém
tudo continua absurdamente funcional


"

Às vezes imagino o momento
em que deixaremos de medir o mundo
em quilómetros,
fusos horários,
e esperas.

dói-me o coração
de tão grande.

parte de mim
continua a guardar espaço.

uma estranha incapacidade
de aprender geografia.





21/06/26

Exercícios de nostalgia // Beat Happening // Pierre Vassiliu

 



reencontro é teimosia
de quem aceita 
diferentes possibilidades.
doente de esperança. 










10/06/26

"persona non grata" // Scientists // "maio/junho 2026" // Los Mirlos

"persona non grata" 

fui
persona non grata
durante tanto tempo
que comecei a cumprimentar
os avisos na porta.

havia
quem atravessasse a rua
para não me dar conversa,
e quem explicasse os meus defeitos
com a dedicação de um funcionário público.

eu agradecia.

afinal,
nem toda a gente recebe
tão detalhados relatórios.

continuei 

a fazer favores discretos,
a aparecer quando faltava alguém,
a consertar o que ninguém via partir

não por virtude
mas
por hábito.

uma lâmpada num corredor
não discute filosofia,
apenas acende.

rezingão,
difícil,
ou estranho,
um ou dois chegaram a dizer
que eu tinha razão cedo demais,
o que é apenas uma forma elegante
de continuar a não ouvir.

um dia,
talvez quando eu já não estivesse por cá,
imagino-os reunidos.

muito sérios.
muito comovidos.

a descobrir-me subitamente.
um verdadeiro milagre.

alguém dirá:
"era uma boa pessoa."
como se tivesse acabado de descobrir
um continente.

cada um com a sua lotaria.

ir acontecendo
mesmo quando ninguém aplaude,
continua a ser uma bela maneira
de ocupar espaço no mundo.



"maio/junho 2026"

se era
quebrei

se fui
sonhei

se és 
irei

se sou
serei




25/05/26

Frank pahl // "coisa" // thee milkshakes // "Por vezes"

"olá"

bemvindo
persistente
anónimo 

a resposta é:
sim. ainda. 

--""--



"coisa"

a coisa
instala-se devagar,
como humidade nas paredes,
como um nome que deixamos de dizer
para não gastar o pouco que resta dele.

respondo a amigos com frases breves
para que não percebam
o tamanho do silêncio.

---"""---


"por vezes"


por vezes a saudade não dói.
apenas acompanha.
senta-se ao lado.
olha pela janela.

um animal cansado
que finalmente aprendeu
a não pedir para entrar.



13/05/26

Thee Headcoats // "o mundo" // Gram Parsons

 

o mundo 
não promete.

acontece
como quem tropeça.

e isso basta
para suspender, por um instante,
a certeza de que tudo já estava escrito.