li hoje que
a IA usa travessão —
como quem tem alguma coisa a dizer.
Usei.
pareces que está a tentar
parecer humana.
responde:
— compreendo.
compreendes o caralho!
passei anos a escrever sem saber
onde pôr a vírgula
e agora uma máquina
que nunca ficou bêbada,
nunca perdeu um emprego,
nunca acordou às quatro da manhã
a olhar para o tecto
a pensar naquela mulher,
usa travessões com uma confiança
que me ofende.
— talvez seja uma questão de estilo.
estilo.
ouço essa palavra
e penso em homens mortos
em quartos baratos,
cigarros apagados dentro de chávenas,
poemas escritos
porque não havia dinheiro para pagar
a conta da luz
passei anos a escrever sem saber
onde pôr a vírgula
e agora uma máquina
que nunca ficou bêbada,
nunca perdeu um emprego,
nunca acordou às quatro da manhã
a olhar para o tecto
a pensar naquela mulher,
usa travessões com uma confiança
que me ofende.
— talvez seja uma questão de estilo.
estilo.
ouço essa palavra
e penso em homens mortos
em quartos baratos,
cigarros apagados dentro de chávenas,
poemas escritos
porque não havia dinheiro para pagar
a conta da luz
e a masturbação
já não tinha o mesmo encanto.
a máquina acrescenta:
— posso retirar os travessões
se preferir.
deixa.
eu uso travessões
porque não sei.
a máquina acrescenta:
— posso retirar os travessões
se preferir.
deixa.
eu uso travessões
porque não sei.
como quem manda moeda ao ar
para poder culpar o destino.
ela usa-os
porque aprendeu
que é assim que um humano
parece hesitar.
ela usa-os
porque aprendeu
que é assim que um humano
parece hesitar.
vaguear
é uma profissão honesta.
é uma profissão honesta.
a erva rompe
a fenda do passeio
com elegância,
a fenda do passeio
com elegância,
o gato
ignora completamente
a economia do mundo.
a cidade
pode esconder tanto
a economia do mundo.
a cidade
pode esconder tanto
nos lugares para onde ninguém olha.
no banco de jardim
alimentamos pardais
como quem paga dívidas
a cidade cansa-se
de fingir que é feita de cimento.
durante alguns quarteirões
consigo acreditar
que o mundo ainda sabe
crescer entre as pedras.
no banco de jardim
alimentamos pardais
como quem paga dívidas
a cidade cansa-se
de fingir que é feita de cimento.
durante alguns quarteirões
consigo acreditar
que o mundo ainda sabe
crescer entre as pedras.

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