13/05/26

Thee Headcoats // "o mundo" // Gram Parsons

 

o mundo 
não promete.

acontece
como quem tropeça.

e isso basta
para suspender, por um instante,
a certeza de que tudo já estava escrito.


06/04/26

arritmia // spacemen 3 // lee hazlewood

 

"arritmia"


dentro de mim

há um relógio

que desaprendeu


não bate as horas


hesita

como se cada segundo

tivesse de pedir licença


os médicos usam

uma palavra arrumada

com sílabas 

que parecem saber o que fazem


cá dentro

é mais

um pássaro

que se esquece do céu

e tenta voar 

aos soluços


há dias em que tudo corre bem

tum-tum

como um comboio

apenas chega


outros

distrai-se

olha pela janela

perde a estação


é

uma espécie de intervalo

um silêncio mal colocado

no meio da frase

que sou





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senta-se

onde a luz da tarde

fica parada.


como quem esquece 

o caminho de volta.


como quem pede licença

já dentro de casa.


não diz nada.


nunca diz nada.


escreve

papéis invisíveis

cheios de coisas

que quase fomos.




01/03/26

Los Mirlos // "ida" // Bobby Fuller Four // Ty Segall

 

"ida"

A distância não são quilómetros
é a cadeira vazia na cozinha,
o telemóvel iluminado às três da manhã.

um farol que não chama navios.

vivemos afastados 
do que sonhámos,
separados por salários curtos,
mapas desenhados a régua,
e fronteiras que cabem dentro do peito.
Num receio pequeno, insistente,
que mastiga o futuro antes de ele nascer
vamos guardando um casaco bom
para um inverno que nunca chega.

Mas 
a imprevisibilidade não é só ameaça;
é também fresta por onde entra o ar.
Se nada está garantido,
tudo ainda é possível.

comprar passagem só de ida
como quem acende uma luz pequena
num quarto demasiado grande.

perceber que a luz não elimina a noite
mas, dentro dela,
desenha caminhos.




01/01/26

Kim & Leanne // fim de ano


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 o ano finda.
arruma-se sem barulho.
devagar.
dentro das palavras.

leva algo
que pensámos ser nosso.

deixa
pequenas perguntas,
gestos interrompidos,
frases inacabadas.

semeia histórias.
oferece
possibilidades.

amanhã,
com outra data,
convidamos palavras novas,
faremos paz com as antigas.

não sabemos descrever melhor
essa forma de perder
o que ainda está connosco.

O melhor de 2025
são as saudades
que sempre terei.



28/12/25

"distância" // Davila 666

 "distância"


a distância
não é espaço.
mas o que se acumula
quando ninguém pergunta.

silêncio
é uma política
aprendida.

falamos de pontes
mas treinamos muros
com eficiência 

em dia de eleição
cada gesto contido
cada mensagem 
não enviada
é um voto a favor

da distância.

o silêncio parece neutro
mas trabalha sempre
para alguém

no fim
não nos separa o longe.

separa-nos
o hábito
de calar
no momento exato
em que dizer
ainda podia fazer
diferença.


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27/12/25

Snapped Ankles // "Lazaro?" // Fool's Gold

 

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saudade não é falta,
nem excesso de silêncio.
é quando o não dito
fala alto.

ausência 
é maneira de estar
sem estar.
uma presença educada
que não se senta.

não escrevo
porque escrever é uma forma de chegar
e estamos proibidos de chegar.

as regras 
têm esta crueldade discreta
de parecerem necessárias.

Tenho um nome
para todo este cuidado 
em não dizer o teu nome.

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21/12/25

The Fall // "Vento" // Bill Callahan



 o vento arrasta
 tudo o que virá
 sem forma e sem nome
 o futuro será 


"Café" // Cleaners from Venus

"Café?"


A saudade não pede licença, entra a pontapé,

fica quando tudo falha e orgulho cai.

Uma chónice do caralho.

Não salva ninguém, mas aguenta o dia,

como um murro no meio do peito.

Eficaz. 

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20/12/25

Dream Syndicate // "o equilibrista" // Nicotine's Orchestra


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"o equilibrista" 

trago o nariz torto 
a alma à mostra
e com eles danço no meio da sala,
ninguém se salva da própria máscara
quando o absurdo decide ser terno. 


fico assim, desajeitado,
como quem pousa o casaco no riso,
e percebo: só somos inteiros
quando não fingimos estar direitos.


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19/12/25

Tall Dwarfs // "repetição #2"

"repetição #2"


 Acordo.
 Sento.
 Levanto-me para continuar.
 Nada acontece.
 Mas agora com mais luz.
 

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07/11/25

"hora de inverno" // My Bloody Valentine

 "hora de inverno"


a hora atrasa, 
a rua muda de pele
e o impossível 
pede abrigo


17/09/25

"as crianças não fazem barulho" // Pram


 "as crianças não fazem barulho"

(Palestina 2025)

o ecrã brilha
com um tipo de luz
que não aquece,
mas queima devagar.

fazemos scroll 
enquanto um corpo pequeno
é retirado dos escombros 
como se fosse 
um saco de arroz estragado.

vendem medo
em brilhantes embalagens
com música épica de fundo.

milhares de partilhas.
milhões de olhos.
nenhuma lágrima.

há dinheiro a ser contado
enquanto os ossos partem,
há contratos assinados
por mãos
que nunca 
empunharam uma pá
para enterrar ninguém,
mas que desenham mapas
com sangue.

as pessoas dizem
"é muito complicado"
e depois voltam à pizza,
à série,
ao sofá.

sem ninguém para varrer,
os corpos acumulam-se
como folhas de outono.

há, no entanto, coisas 
que não conseguiram matar:
o olhar
pequeno, sujo, faminto,
que ainda acredita.

uma mão que se estende 
quando tudo ensina 
a fechar o punho.

mesmo entre ruínas,  
a esperança é teimosa.
às vezes disfarçada de loucura,
ou de poesia mal escrita.

está viva.
e um dia vai gritar 
mais alto que todas as bombas!

Ouçam o que vos digo!
Falo do que sei.

A esperança é teimosa!


15/09/25

"fim de tarde" // John Adams // "repetição" // and also the trees

"fim de tarde"


os candeeiros 
               acordam 
o relógio derrete sobre a pele do rio
e os pássaros 
                tropeçam no silêncio

no entardecer 

desfaz-se o nome das ruas

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 "repetição"



tentamos 
justificar a repetição.

promessas não enchem bolsos.
o café já não funciona.
as máquinas estão cheias de ferrugem 

cada reunião 
apaga-me 
um pouco mais 
o nome.

tiro o lápis da boca, 
desenho a saída no chão


01/08/25

"raro" // Loscil // "verão" // Mystery Lights // "urgência" // Erik Satie // "nem" // "carta" // Carol & Snowy Red

 "raro"


raramente
encontro
o que eu quero

o que eu quero 
é a verdade.
o que eu quero 
é escrever 
sem pensar quem vai ler.
o que eu quero 
é quem saiba ler
e sentir.
o que eu quero 
é uma pele
que me procure 
e uma alma
que não se assuste.

o que eu quero 
é não ter de sorrir 
quando sinto os lábios presos.
o que eu quero 
é sair da cama 
sem ter de negociar.
o que eu quero 
é que a cidade 
pare por uma tarde.
quero 
uma mesa 
sem falsas promessas
que guarde  em si 
todas as possibilidades.

o que eu quero 
é continuar.
o que eu quero 
é falhar 
e continuar
o que eu quero 
é continuar sempre
a encontrar beleza 
nas coisas quebradas.
é não ter de esconder nada 
dentro de palavras.
o que eu quero 
é um pouco de céu
em cada beijo.

o que eu quero 
é que a luz 
não se esqueça de mim
tal como eu
também na escuridão
por ela
insisto. 

o que eu quero
é quem,
com os pés 
bem assentes na terra
teime em voar.



"Verão"

as noites 
não expressam, 
por si mesmas, 
sentido algum

apenas calor.
acumulado nas paredes.

procura-se amor
como quem procura sombra.

sonha-se
como quem sacia sede.



"urgência"

porque o dia finda
porque o coração vai
porque o tempo ensina
porque a noite cai

porque, 
contas feitas, 
talvez 
a única coisa 
que tenhamos verdadeiramente 

seja uns aos outros.



"??"

às vezes, a cidade faz-se ouvir
só para lembrar que ainda há tempo
quando isso acontece,
da confusão faz encanto.

às vezes o olhar 
alonga-se
sem nome, nem plano 
apenas possibilidade

como quem esquece a pressa
não trocamos apenas nomes,
mas trocamos o rumo do dia.

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"nem"

nem toda a fome 
é 
vontade de comer 

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"carta"

o silêncio cresce 
como ferrugem
no portão

um dia 
rangíamos juntos
outro dia 
não 

26/06/25

"no escuro" // the knife

porque
a memória persiste

procuro
para não encontrar

no escuro
procuro
        procuro
                 procuro

braços
que consigam
            contornar





certo que,

não sendo teus,
sei
autosabotar.


dizias: "do amor, quero tudo"
onde está então a coragem 
para o revindicar?

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"I don't like it easy
I don't like the straight way
 "

24/06/25

recorrente // John Cale

caminho descalço
para sentir o chão
pé ante pé
em contramão
durmo de noite
sobre céu encoberto
sonho de dia
para te trazer perto

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