o mundo
como quem tropeça.
e isso basta
"Let everything that's been planned come true. Let them believe. And let them have a laugh at their passions. Because what they call passion actually is not some emotional energy, but just the friction between their souls and the outside world. And most important, let them believe in themselves. Let them be helpless like children, because weakness is a great thing, and strength is nothing. (...) " de "Stalker" (Andrei Tarkovsky)
o mundo
"arritmia"
dentro de mim
há um relógio
que desaprendeu
não bate as horas
hesita
como se cada segundo
tivesse de pedir licença
os médicos usam
uma palavra arrumada
com sílabas
que parecem saber o que fazem
cá dentro
é mais
um pássaro
que se esquece do céu
e tenta voar
aos soluços
há dias em que tudo corre bem
tum-tum
como um comboio
apenas chega
outros
distrai-se
olha pela janela
perde a estação
é
uma espécie de intervalo
um silêncio mal colocado
no meio da frase
que sou
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senta-se
onde a luz da tarde
fica parada.
como quem esquece
o caminho de volta.
como quem pede licença
já dentro de casa.
não diz nada.
nunca diz nada.
escreve
papéis invisíveis
cheios de coisas
que quase fomos.
"ida"
A distância não são quilómetros
é a cadeira vazia na cozinha,
o telemóvel iluminado às três da manhã.
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o ano finda.
arruma-se sem barulho.
devagar.
dentro das palavras.
leva algo
que pensámos ser nosso.
deixa
pequenas perguntas,
gestos interrompidos,
frases inacabadas.
semeia histórias.
oferece
possibilidades.
amanhã,
com outra data,
convidamos palavras novas,
faremos paz com as antigas.
não sabemos descrever melhor
essa forma de perder
o que ainda está connosco.
O melhor de 2025
são as saudades
que sempre terei.
"distância"
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saudade não é falta,
nem excesso de silêncio.
é quando o não dito
fala alto.
ausência
é maneira de estar
sem estar.
uma presença educada
que não se senta.
"Café?"
A saudade não pede licença, entra a pontapé,
fica quando tudo falha e orgulho cai.
Uma chónice do caralho.
Não salva ninguém, mas aguenta o dia,
como um murro no meio do peito.
Eficaz.
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"o equilibrista"
trago o nariz torto
a alma à mostra
e com eles danço no meio da sala,
ninguém se salva da própria máscara
quando o absurdo decide ser terno.
fico assim, desajeitado,
como quem pousa o casaco no riso,
e percebo: só somos inteiros
quando não fingimos estar direitos.
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"repetição #2"
"hora de inverno"
"as crianças não fazem barulho"
"fim de tarde"
no entardecer
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"repetição"
"raro"
porque
a memória persiste
procuro
para não encontrar
no escuro
procuro
procuro
procuro
braços
que consigam
contornar
certo que,
não sendo teus,
sei
autosabotar.
dizias: "do amor, quero tudo"
onde está então a coragem
para o revindicar?
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caminho descalço
para sentir o chão
pé ante pé
em contramão
durmo de noite
sobre céu encoberto
sonho de dia
para te trazer perto
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